Dom, 08 de Fevereiro de 2009 12:58    PDF Imprimir E-mail
Boca aberta, dentes à mostra: o encontro necessário com a arte no dia a dia
Arte

Por que escrever uma coluna sobre arte num site criado para brasileiros que vivem na Suécia? 

Qual meu interesse e meu objetivo, quando sei que há tantas questões práticas vividas pela pessoa que imigra e tantas necessidades mais "urgentes" do que aprender e refletir sobre arte?

 

Há uma primeira coisa que acredito haver em comum com aqueles que buscam viver fora de seu país: a abertura para o novo. Cada qual provavelmente tem uma razão particular para ter buscado esse "novo", como por exemplo amor, trabalho, estudo, vivência, experiência etc.

Inseridos numa nova cultura é preciso se dedicar a aprender sobre tudo, incluindo aprender a falar uma nova língua, aprender a ser alguém um tanto diferente para se adequar e ser aceito.

Perceber e refletir sobre expressões artísticas é uma maneira muito prazerosa de aprender, de obter pontos de vistas variados e enriquecedores. A arte pode revelar mais sobre a cultura onde estamos vivendo e pode, ao mesmo tempo, fazer com que também reflitamos sobre a nossa. 

Lembro-me de que em minha primeira viagem à Europa, visitando o Museu do Prado, em Madrid, e o Museu D´Orsay, em Paris, senti como se tivesse vivido dez anos em dez dias. Como se tivesse lido inúmeros livros de história e geografia. Vendo a arte dos pintores mais consagrados da história da arte ocidental eu consegui ter uma percepção que muitos anos de escola não haviam me dado: como era o mundo em que esses artistas viveram e qual a percepção que eles tinham tido dele. 

Por essa razão penso que escrever uma coluna sobre arte para pessoas, cuja abertura ao novo e ao mundo lhes fizeram estar do outro lado do mundo, é uma maneira de contribuir para seu enriquecimento e sua inserção nesse novo mundo. Sem contar que fazendo isso estarei eu mesma exposta a reflexões e, quem sabe, contribuições que me ajudarão a enriquecer minha visão de arte e de mundo também.

Exército de bonecas

robinson

Qual impressão que você teria ao se deparar com um exército de bonecas, exposto de forma linear, num sala grande e branca de um museu?

No mês de novembro fui rever uma exposição no Statens Museum for Kunst (Museu do Estado para Artes), em Copenhaguem que havia me causado certo impacto. A curta distância entre Malmö, cidade onde vivo no sul da Suécia, com a capital da Dinamarca é tão pequena que permite essa troca bastante produtiva entre os dois países e seu povo.

Reality Check, como foi intitulada, tratava-se de uma exposição de arte contemporânea na qual o visitante era convidado a duas coisas. Primeiro, perceber como a realidade foi sentida e captada pelos artistas que ali estavam expondo. Segundo, vivenciar a exposição a partir de uma percepção própria daquela realidade testada antes pelo artista e traduzida por ele para uma outra realidade.

Dividida em várias zonas espalhadas pelo grande museu, Reality Check trouxe inúmeras obras intrigantes e diversos olhares perceptivos.

Entre muitas obras de forte impacto estava a de Zoe Leonard, artista americano. Leonard criou a obra “Mouth open, teeth showing” em 2000, para a qual juntou 162 bonecas e as colocou em fileiras diagonais numa grande sala do museu. Representantes de várias décadas, cada uma possui uma característica de beleza celebrada por cada década.

As bonecas não haviam sido ordenadas pelo tamanho e isso me causou um certo desconforto. Algumas estavam vestidas e continuavam bem cuidadas, outras estavam sem nenhuma roupa e deixavam ver a engenhoca que era seus corpos.

Com cabelos emaranhados ou partes quebradas, algumas bonecas tinham aspecto aterrorizador. O brinquedo que serviu numa realidade passada para fazer rir e brincar perdera seu valor, quando separado da criança. Deixados de lado, substituídos pelo tempo, as bonecas tinham todas algo em comum: foram testemunhas de uma realidade vivida. Enfileiradas, como um exército, perderam a ingenuidade e singeleza, causam medo e estranhamento. A sensação de realidade deslocada.

Checar a realidade da obra de Zoe Leonard significa pensar em muitas questões sobre outras realidades: como era cada criança que acompanhou cada boneca? Como viveram e o que fizeram depois? Como o processo de consumismo transformou um brinquedo antes valorizado em um lixo não quisto? Como cada boneca revela o ideal de beleza que sua época lhe impôs e como esse ideal foi sendo substituído e desvalorizado com o tempo e a moda?

tracey-williamsAs bonecas de Zoe Leonard são em última estância assustadoras. Parecem fantasmas, porque não têm mais a vida que cada criança lhe dera. Enquanto bonecas, pertencentes a um indivíduo, elas ganhavam autonomia e vida tal como aquele. Enquanto exército numa sala vazia participam de uma mesma sina: serem criadas, queridas e depois abandonadas.

Tal como o padrão de beleza que um dia imitaram, produzidas em série, acabam totalmente despersonalizadas fora do contexto de moda do qual participaram.

Ter em frente o exército de bonecas de Zoe Leonard é ser lançado ao questionamento. Impossível passar por ele sem nada sentir e pensar. Minha realidade foi modificada a partir da realidade de Zoe Leonard e de suas bonecas e é para isso que acredito que as obras de artes precisem existir.

 
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